LIVRO – UMA AVENTURA GELADA
Viagens de moto atraem pelo desafio e espírito de aventura. Esse é o combustível para a ousa-dia dos motociclistas. Engolir milhares de quilômetros à procura dos desertos, savanas e glaciares gelados de todo o mundo são desejos comuns. Mas o representante comercial de 45 anos e pai de3 filhos, Francisco José Cavalcante, “Bozoka“, descobriu um lugar onde nenhum motociclista jamais esteve com a sua moto e foi até lá, “ver qual é“: Antártica. Esse foi o destino escolhido por Bozoka, que não gosta de ser chamado de aventureiro, mas, sim, de expedicionário.
Ele projetou e executou uma expedição à Antártica visando marcar para o Brasil um recorde ainda não escrito no livro dosrecordes, o Guinness. Bozoka diz que “a idéia era unir o útil ao agradável, é realizar o desejo deconhecer o local e entrar para o livro dos recordes”.
Para isso, Bozoka rodou 9.300km de Fortaleza (CE), onde mora, até Punta Arenas, no extremosul do Chile, de lá navegou mais 1.200km no navio de apoio oceanográfico da Marinha brasileira(Ary Rongel) para atingir o seu objetivo: Rodar com sua Traxx Fly sobre o gelo antártico do GlaciarWanda, na Ilha Rei Jorge, distante três quilômetros da estação brasileira de pesquisas ComandanteFerraz.
A escolha dessa marca de moto aconteceu por conta do bom relacionamento de Bozoka com aTraxx, que tem sede inclusive em Fortaleza (CE). Por conta disso, foi a primeira empresa a tomar co-nhecimento de seu projeto e aceitou o desafio de imediato. Com tudo aprovado e planejado, Franciscopartiu de Fortaleza (CE) em 11 de dezembro, apoiado pela jornalista Kérsia Porto e pelo cinegrafistaJuliano Vasconcelos, ambos seguindo-o de carro.
Rodando em média 650km por dia, o expedicionário viu o melhor e o pior do Brasil enquantotocava a sua Fly para o sul, rumo a Foz do Iguaçu. Para começar, uma volta promocional pelasconcessionárias Traxx em implantação no Nordeste o levou a belas cidades: Mossoró (RN), CurraisNovos (RN), Santa Cruz (RN), Natal (RN), João Pessoa (PB) e Maceió (AL).
Cortando o Brasil pela BR-116, Bozoka presenciou no interior baiano o atropelamento e a mortede um garoto de oito anos. “Foi no acostamento da estrada totalmente danificada e o motorista que atropelou fugiu em uma perua Topik prata, sem prestar socorro. Muito triste para mim que reverto a renda das minhas publicações sobre as minhas viagens para uma casa de apoio a crianças carentes com câncer (Casa do Menino Jesus)”, lamenta ele.
Uberlândia (MG) foi a melhor alternativa. De lá o grupo descansou em São José do Rio Preto, em São Paulo e dali seguiu para Maringá (PR) e Foz do Iguaçú (PR).
Saindo do Brasil, o grande problema é a burocracia da alfândega Argentina. Para carro e moto sempre é bom lembrar que o extintor de incêndio, triângulo e outros acessórios podem ser exigidos e vistoriados. Passadas as filas e os aborrecimentos, de volta às estradas argentinas e suas longas retas.
O Natal de 2005 foi passado em Santo Tomé, ainda na Argentina. Bozoka cruzou (e ajudou) muitos motociclistas brasileiros nas estradas e cidades da Patagônia, Argentina. A maioria deles rumando ou voltando de Ushuaia (sem dúvida ainda um dos objetivos mais cobiçados pelos brasileiros).
No último dia de estrada, mais chateação, na fronteira entre Chile e Argentina para poder chegar a Punta Arenas, onde o navio da Marinha brasileira aguardava. OReveillon foi comemorado a bordo do belo navio brasileiro e portanto, em “território nacional”.
O navio chegou ao ponto de desembarque planejado para o cumprimento da missão, em 11 de janeiro. Era a hora “H” e o bote comandado pelo Sargento-mergulhador Cícero atracou no imenso bloco de gelo que compõe o Glaciar Wanda. Após inspeção de especialistas, uma área foi considerada segura para rodar.
Acompanhado por Nestor Miranda (Capitão de corveta-médico) e Christiano Garnett (pesquisador do INPE, Bozoka desfrutou seu momento de glória e foi para a galera, fotografando e curtindo sua nova conquista. “A sensação de pilotar em um glaciar Antártico é indescritível. Foi minha realização pessoal”, afirmou Francisco enquanto segurava a bandeira do Brasil junto da Traxx Fly125cc para as fotos. Estava vencida a última fronteira para as motos em nosso planeta. Mas será que essa é mesmo a última fronteira? Afinal, ainda temos vulcões, o fundo mar…
Texto extraído da Revista Super Moto nº 26 março de 2006 – Escrito por Paulo Bambirra
